sexta-feira, 28 de junho de 2013

Warning: Faroeste Caboclo by Felipe Demier



Na última quinta-feira (30/05/2013), estreou nos cinemas das principais capitais do país o filme Faroeste Caboclo, que promete ser um grande sucesso de público. Dirigido por René Sampaio, o animado thriller é uma adaptação livre da canção homônima de Renato Russo, a qual, como se sabe, narra em cerca de nove minutos a épica saga de João de Santo Cristo (interpretado no filme por Fabrício Oliveira).
 
Faixa mais famosa do terceiro disco da Legião Urbana (Que país é esse?), lançado em 1987, “Faroeste Caboclo” foi composta por Renato Russo em 1979 (antes mesmo de a banda existir), quando se apresentava como o “trovador solitário” de Brasília (DF). Rompendo com o trio de punk-rock intitulado Aborto Elétrico, Renato Russo passou a compor sozinho músicas que eram executadas por ele (na base da voz e violão) na abertura de shows das iniciantes bandas de rock da capital federal. É desse período que datam ainda canções como a balada “Eu sei”, também incluída no disco Que país é esse?. Apurando sua verve criativa, o jovem Renato mesclava influências estéticas variadas que iam dos versos românticos de Arthur Rimbaud às guitarras distorcidas de The Clash e Joy Division. Juntando poesia ao rock na virada de década de 1970, o futuro ícone de gerações de jovens brasileiros podia ser considerado uma espécie de “Bob Dylan do cerrado”, como gosta de dizer seu ex-parceiro de Legião, o guitarrista e compositor Dado Villa-Lobos. Dylan, aliás, seria uma influência clara em “Faroeste Caboclo”, canção que o próprio Renato comparava à “Hurricane” (1975), na qual o ídolo folk-rock americano retrata em aproximadamente sete minutos o caso de um boxer negro que, no auge da luta contra a segregação racial nos Estados Unidos (década de 1960), acabou condenado por um júri composto só por brancos, passando dezenove anos atrás das grades por um crime que não cometeu.

Desempenhando um papel de “Hurricane dos trópicos”, João de Santo Cristo é, na letra de Renato Russo, um filho da miséria e do atraso social do país, cujos efeitos como a violência, a brutalidade das relações humanas e o preconceito de classe e raça funcionam como fortes condicionantes da errática vida do protagonista (“Não entedia como a vida funcionava/ discriminação por causa de sua classe e sua cor/ ficou cansado de tentar achar resposta/ comprou uma passagem, foi direto a Salvador”). Esse aspecto, assim como outros presentes na canção, é bem retratado no longa de René Sampaio. Valendo-se de uma trabalhada fotografia, o cineasta retrata as origens miseráveis de João de Santo Cristo logo no início do filme. Em alguns takes que fazem lembrar (mesmo que vagamente) a “estética da fome” do Cinema Novo de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, João de Santo Cristo aparece ainda bem pequeno tentando, em vão, buscar água em um poço artesiano, e em outro momento deitado ao lado de sua mãe enferma em um decadente casebre situado em algum lugar do árido sertão brasileiro.




A trajetória da vida de João de Santo Cristo, na letra de Renato, se explica, a meu ver, por meio de uma tensão dialética entre, de um lado, as condições sociais em que João se encontra (o pauperismo e as degradantes relações humanas ao seu entorno) e, de outro, as opções e escolhas feitas por ele – sempre com uma boa dose de dúvida – em face dessas condições sociais determinadas (trabalhar como carpinteiro por um salário exíguo ou aderir à criminalidade; continuar no tráfico de drogas para conseguir dinheiro ou abandoná-lo para reconquistar seu amor etc.) Escapando de um determinismo animalesco de tipo naturalista (que unilateralmente reduz o sujeito a um mero produto do meio em que vive), a letra da música relata a vida do “anti-herói” como resultado de uma contradição entre a poderosa força dos condicionantes sociais e o próprio caráter pessoal do personagem, caráter esse cuja construção, por sua vez, é sempre remetida às duras condições sociais em que se encontra João de Santo Cristo (“Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu/ Quando criança só pensava em ser bandido/ Ainda mais quando com um tiro de soldado o pai morreu [...] Sentia mesmo que era mesmo diferente/ Sentia que aquilo ali não era o seu lugar/ Ele queria sair para ver o mar/ e as coisas que ele via na televisão/ Juntou dinheiro para poder viajar/ De escolha própria escolheu a solidão”).

Na letra de Renato Russo, temos a impressão de que João de Santo Cristo opõe, ao longo da história, uma resistência moral (ora aberta, ora velada) às injunções sociais que o impelem a seguir uma vida de “fora da lei”. Em função de suas necessidades materiais e espirituais (como conseguir dinheiro e preservar o amor da “menina linda” Maria Lúcia, interpretada no filme pela bela Isis Valverde), João oscila boa parte do tempo entre a vida de trabalhador (carpinteiro) e a de bandido (traficante de drogas) – Na gravação da canção, as mudanças entre essas opções de vida por Santo Cristo são acompanhadas por modificações no ritmo e andamento musical (basta conferir, por exemplo, a passagem da estrofe iniciada com o verso “Agora o Santo Cristo era bandido, destemido e temido no Distrito Federal…” para a seguinte iniciada com “Foi quando conheceu uma menina e de todos os pecados ele se arrependeu…”). Contudo, ao final da letra, o protagonista, devorado pelas dramáticas condições sociais, parece se render finalmente a elas, tornando-se decididamente um marginal. Tal “opção” – é curioso notar – se dá somente ao final da narrativa da música, quando, baleado e prestes a morrer, João de Santo Cristo rememora sua vida e aceita resolutamente o papel de bandido (“E se lembrou de quando era uma criança/ e de tudo que vivera até ali/ edecidiu entrar de vez naquela dança/ ‘se a via-crucis virou circo estou aqui’”) Assim, dialeticamente, o momento em que João de Santo Cristo parece finalmente fazer valer a sua decisão, parece fazer valer o seu papel de sujeito na trama musicada, é, na verdade, o momento em que ele finalmente se sujeita por completo às bárbaras injunções sociais que lhe reservavam o papel de “fora da lei”. Na canção, portanto, fica claro que o leque de possibilidades oferecidas pela realidade concreta de Santo Cristo era muito reduzido, compelindo o personagem, ao fim e ao cabo, a adequar-se às tendências mais fortes postas pela dinâmica social (no caso, a vida de bandido).

Essa tensão entre as determinações sociais e as opções pessoais de Santo Cristo em face delas também permeia o filme de René Sampaio, embora de um modo não dialético e, por conseguinte, unilateralmente determinista. Por um lado, várias cenas expõem, de uma forma bem interessante, as duras condições de vida as quais João se encontra submetido, e que podem ser vistas como socialmente responsáveis por sua escolha pelo crime (a morte de seu pai por um policial militar, os anos de cadeia, a perseguição policial que sofre durante quase toda a vida etc.). Por outro lado – é preciso dizer –, outras cenas explicitam a tentativa de Santo Cristo de, em face das adversidades sociais, preservar íntegro seu núcleo moral subjetivo (sua tentativa de trabalhar como carpinteiro, sua opção de abandonar o tráfico para reconquistar Maria Lúcia, sua recusa em continuar colaborando criminalmente com seu primo Pablo – interpretado por César Troncoso – ao perceber que ele extorque covardemente pequenos comerciantes etc.). Assim, durante o longa-metragem, João de Santo Cristo alterna por algumas vezes sua profissão de carpinteiro com sua atividade de revendedor de drogas (o que, talvez, nos permita situar o protagonista como pertencente a uma camada social – cada vez maior nos tempos atuais da periferia capitalista – em que as distâncias entre o mundo do trabalhoprecarizado e o da criminalidade lumpem são surpreendentemente tênues). Tal como na canção, o filme apresenta um desfecho em que João se rende, conformadamente, às hostis pressões sociais que o circunscrevem; já tendo abandonado a vida criminosa, Santo Cristo é sexualmente violentado pela quadrilha do arquirrival Jeremias (Felipe Abib) e, a partir daí, assume convictamente a função de “o matador de Ceilândia”, partindo para a cruenta vingança contra seus inimigos. Contudo, diferentemente da canção, o choque entre os atrozes condicionantes sociais e a subjetividade de Santo Cristo aparece no filme à maneira de uma tragédia grega, onde o final (no caso, a submissão de Santo Cristo às tais hostis pressões sociais) já se encontra predeterminado. Pelo modo como a narrativa é construída, o público tem a impressão de que, por mais que se esforçasse, João de Santos Cristo não poderia mesmo escapar ao seu inexorável destino, tal como um autêntico herói de Homero. O caminho da criminalidade não é apresentado, portanto, como uma possibilidade, e sim como algo “natural” e praticamente “inevitável” na trajetória do protagonista. Assim, a indagação feita pelo próprio personagem principal ao início e ao final da trama, “poderia ter sido meu destino diferente?”, parece ter sido colocada na boca de João pelo diretor apenas para ser respondida peremptoriamente pela negativa.

Outro aspecto a ser destacado no filme é que, em sua já mencionada livre adaptação da música, o diretor René Sampaio (intencionalmente ou não) imprimiu à trama contornos abertamente classistas. Diferentemente do que parece dar a entender a letra de Renato Russo, o “sem-vergonha” Jeremias é retratado na película como um bandido de origem burguesa, branco e mancomunado com policiais corruptos (como o detetive “Marco Aurélio”, muito bem interpretado pelo talentoso Antônio Calloni). Do mesmo modo, a “mocinha” Maria Lúcia é apresentada como uma jovem estudante de arquitetura da Universidade Nacional de Brasília (UNB), filha de um elitista e racista senador (Ney, interpretado pelo falecido Marcos Paulo). A meu ver, a “guerra” entre Santo Cristo e Jeremias parece ser, na letra de Renato Russo, não mais do que uma rocambolesca disputa pelo controle do tráfico de drogas e pelo amor da plebeia Maria Lúcia entre dois marginais caboclos das cidades-satélites do Distrito Federal (disputa essa que, justamente por ser cingida à periferia, não pareceu crível à classe dominante que dela soube pelos meios de comunicação: “E a alta burguesia da cidade não acreditou na história que eles viram na TV”). No filme, porém, o embate toma a forma de um estrondoso conflito bélico entre dois traficantes, um pobre e um rico, pelo controle do tráfico e pelo amor da agora burguesa Maria Lúcia. De um lado, João de Santo Cristo, de origem miserável, ex-carpinteiro e habitante da periférica e favelizada Ceilândia; do outro, Jeremias, o traficante-playboy que, em sua mansão, promove festas frequentadas pelos jovens da “alta sociedade” brasiliense. Desse modo, ainda que sob uma forma estereotipada e indireta, o sanguinário confronto entre violentas quadrilhas armadas que se desenrola no filme acaba por evidenciar o antagonismo de classe da sociedade burguesa e, consequentemente, as contradições geradas pelo desenvolvimento desigual e combinado do Distrito Federal, onde o aburguesado plano-piloto contrasta com degradantes municípios como Planaltina e a própria Ceilândia (fornecedores de mão de obra barata para a capital federal). Além de enfrentar o rico Jeremias, João de Santo Cristo é, em função de sua origem social e cor de pele (negra), acossado durante quase toda a história pelo aparelho repressivo do Estado, a polícia. Por esses motivos, o banditismo de João de Santo Cristo assume, de certo modo, o aspecto de um “banditismo social”, ainda que o personagem não se coloque em nenhum momento como porta-voz de sujeitos sociais mais amplos, o que destoa de uma interpretação que pode ser feita da canção da Legião Urbana (“Ele queria era falar pro presidente/ Pra ajudar toda essa gente que só faz… sofrer”).

Em um terreno mais propriamente político, convém assinalar a ausência de qualquer referência mais direta à indelével ditadura militar brasileira, que tinha vigência durante o período em que a trama se desenvolve. Nessa questão – mais uma vez –, o filme se distingue significativamente da letra de Renato Russo, na qual o “futuro” de Santo Cristo tornou-se “incerto” a partir do momento em que ele taxativamente recusou uma proposta feita por um “general de dez estrelas” para colocar “bomba em banca de jornal” e “em colégio de criança” – provavelmente, uma referência de Renato às ações terroristas do setor da linha dura militar que se opunha à abertura do regime ditatorial.


Em termos estéticos, vale ressaltar que existe no filme uma influência exagerada de Quentin Tarantino, o que é perceptível, por exemplo, nas cenas de western-cult e, sobretudo, na trilha sonora que as acompanha (em certos takes, o exímio atirador João de Santo Cristo assemelha-se ao ágil pistoleiro Django, tanto na performance de um estiloso matador, quanto na justificada crueldade endereçada aos seus adversários – embora, vale ressalvar, Faroeste Caboclotenha sido filmado antes do último sucesso de Tarantino). Há no filme, também – como bem me chamou a atenção o historiador Romulo Mattos –, uma clara e criticável estetização da violência dos setores populares, deixando clara a referência do diretor a filmes como Cidade de Deus (2002) e Última parada 174 (2008), de autoria, respectivamente, dos hollywoodianos Fernando Meirelles e Bruno Barreto. Inegavelmente, contudo, René Sampaio tem o mérito de se aventurar a traduzir para a linguagem cinematográfica uma das músicas mais populares do país nas últimas décadas, a qual, arrisco-me a dizer, tem a sua letra memorizada (mais ou menos perfeitamente) por uma enorme quantidade de brasileiros situados na faixa entre os trinta e os cinquenta anos de idade. O filme é, assim, um exemplo da vivacidade tanto de “Faroeste Caboclo”, quanto da própria Legião Urbana, extinta em 1996 quando da morte de Renato Russo. Uma das provas dessa vivacidade talvez seja o fato de que, uma vez encerrada a trama de João de Santo Cristo na tela grande, pouquíssimos foram os espectadores que arredaram pé do cinema e não escutaram, uma vez mais, a longa canção que acompanha os créditos finais do filme.

Matéria: felipe Demier 
Edição e fotos:Rodrigo Rocco / Divulgação

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Que Ensino Temos? by Denilson Botelho




                A carreira do magistério, tal como nas universidades públicas federais, deve ser estimulante, “meritocrática” e motivar a qualificação. Professores da educação básica devem ser reconhecidos também como pesquisadores em suas áreas de atuação e, na medida em que realizem mestrado e doutorado, alcançarão outros níveis da carreira.

                É claro que tudo isso deve se refletir também nas universidades públicas, onde os salários precisam ser equiparados às carreiras de excelência do Estado. E onde os professores não passem mais do que oito horas semanais em sala de aula – conquista que no sul e sudeste do país já foi concretizada, mas no norte e nordeste ainda está longe de ser uma realidade -, para assim poder dar conta de outras atribuições fundamentais relacionadas a pesquisa, orientação, produção de conhecimento e formação de novos quadros profissionais.

                Nas últimas décadas, o que temos assistido no campo da educação é a perversa imposição de duvidosas metas produtivistas que visam melhorar a qualidade do ensino. Na prática, isso tem se traduzido em iniciativas do tipo “vamos pagar mais ao professor que aprovar (produzir) mais alunos”. O resultado desastroso dessa política está aí, nas ruas, nos gritos dos nossos jovens por uma educação de melhor qualidade.
                Portanto, é hora de inverter a estratégia. Tornemos primeiramente o magistério uma área de atuação cobiçada e regiamente remunerada. Feito isso, aí sim podemos retomar o debate sobre metas e produtividade – caso ele não tenha caducado e se tornado completamente desnecessário em face de um corpo docente nacional majoritariamente dedicado, empenhado no êxito do seu trabalho e orgulhoso das condições socioeconômicas de que dispõe para exercer sua atividade profissional e viver.

                Os royalties do petróleo podem fazer uma revolução na educação do nosso país, desde que observada a prioridade de investimento nos salários dos professores da educação básica e a necessária ruptura com um modelo de avaliação da eficiência do ensino regido por metas “quantitativistas” estritamente neoliberais. Estamos diante de mais uma oportunidade para intervir no debate sobre a qualidade do ensino. Debate esse que foi sequestrado por “sábios” gerentes travestidos de secretários de educação, mas cujo ramo efetivo de atuação é o negócio do ensino, o de como educar mais, gastando menos e lucrando o máximo possível. É contra esse modelo de ensino que o povo está nas ruas.

Matéria: Denilson Botelho
Edição e fotos: Rodrigo Rocco


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Sensations In The Skin by Penny Lane


Elfic Circle (Lord of the Rings) - Leonardo Bandeira de Mello

KA - Torre Negra) - Leonardo B. de Mello

     Nessa primeira linha de abordagem com a tatuadora e artista plástica Penny Lane, vamos pegar um lado mais permanente, com seu trabalho na área de tatoos. Penny desenvolveu uma linha suave em um ambiente hardcore, ela apresenta a arte no corpo de forma delicada com traços finos e elegantes, e sempre com um ótimo astral, talvez isso seja fruto de sua atuação nas artes plásticas, que no final se torna uma grande influência na hora de fazer as tatuagens.

Obs: Agradeço ao Leonardo Bandeira de Mello (Panda) por autorizar as fotos de Elfic Circle e Ka (Torre Negra)  e deixo sua frase: " Nem todos que vagueiam estão perdidos'." por Panda. E também a participação especial de Núria Veloso com Hindu Lotus



Hindu Lotus - Núria Veloso



Para saber mais sobre a artista e tatuadora Penny Lane siga os links:
Follows:

E-mail:  valemessina85@gmail.com

Penny Lane in Botafogo

Fotos cedidas ao Na Lata por: Penny Lane
Autorização de imagens (tatoos): Leonardo Bandeira de Mello (Panda)
Núria Veloso
Edição: Rodrigo Rocco

Obs: Qualquer cópia ou reprogramação visual deve ter seu pedido formal dirigido ao criador da arte exposta Penny Lane.Sem isso o copyright é inviolável.Agradeço aos amigos que acompanham o Na Lata. ATT Rodrigo Rocco.  


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Pelo quê clama o povo na rua? by Denilson Botelho



     Acompanho com entusiasmo e perplexidade as manifestações que tomam as ruas das capitais e de outras cidades pelo Brasil afora. A demanda pela redução da tarifa dos transportes públicos parece ter sido apenas um dos fatores que desencadeou o movimento social que vai se avolumando. Alcançada a meta inicial da revogação de um aumento de R$ 0,20, ninguém parece satisfeito. E programa-se para hoje, 20 de junho, uma mobilização nacional.

         Todos nos perguntamos para onde tudo isso vai nos levar e pelo que clama afinal o povo na rua. Há um clamor pelo passe livre, pelo direito de ir e vir, privatizado por grupos empresariais que faturam alto há décadas sobre o nosso direito de livre locomoção. Além de livre e gratuito, que o transporte seja digno e de qualidade, ao invés da humilhação cotidiana que sempre foi. Não queremos mais ser tratados como gado, transportados em carrocerias de caminhões que são destinadas ao transporte de carga, não de seres humanos. E queremos mobilidade rápida e eficiente, que só é possível sobre trilhos.

         Para além disso, contesta-se um grave desvirtuamento de prioridades. Ao invés de grandes eventos esportivos mundiais, capazes de abarrotar ainda mais os bolsos dos empreiteiros que enriquecem criminosamente às custas do suor do povo, queremos ensino público e gratuito de qualidade, saúde pública eficiente e gratuita para todos, entre outras demandas legítimas e históricas.Contudo, o que me soa preocupante nessas manifestações são as bandeiras contra a corrupção e contra os partidos, indicando tratar-se de um movimento apartidário.

Quanto à corrupção, é evidente que todos devemos protestar e nisso não há nada de inquietante. Estranho seria o contrário. Mas a corrupção precisa ser combatida em todas as esferas, no poder público em todas as suas instâncias e também no cotidiano de cada indivíduo que tem tomado as ruas de assalto. A corrupção está disseminada nas nossas práticas mais corriqueiras. Negá-la é o mesmo que varrer a sujeira para debaixo do tapete. É prática difusa e disseminada na sociedade, não acometendo com exclusividade políticos e autoridades. Com isso, não quero evidentemente negar a importância do combate à corrupção, mas ressaltar a importância de nos olharmos no espelho e examinarmos detidamente, um a um, até onde vai a condenação de tais práticas no nosso cotidiano. Ou seja, não se vai abolir a corrupção por decreto, é problema mais complexo. Assim, evitaremos que o movimento que está na rua transforme-se em mera evocação do passado, da vassoura moralista da UDN que elegeu Jânio Quadros ou da TFP que saudou com alegria o golpe de estado que deu início a 21 anos de ditadura nesse país.

         Quanto ao pretenso caráter apartidário do movimento, meu desconforto é ainda maior. Ora, o que faz o povo na rua nesse momento senão tomar partido em face dos problemas que enfrentamos? Não existe luta que não seja política e ideológica, nem mesmo quando se pretende negar ou ocultar tais princípios. Aliás, a negação do caráter partidário e ideológico sempre me causa preocupação ainda maior.

         É verdade que convivemos com um sistema político falido e uma estrutura partidária estagnada e excessivamente verticalizada. Não sou e nunca fui filiado a partido algum, embora tenha votado minha vida inteira no PT. Adolescente, vi o PT ser criado e encher de esperança a minha geração. O PT era um partido de base, que ouvia as bases que o compunham em rotineiras – e saudáveis – assembleias. Foi isso que fez do PT um partido popular, de massas, capaz de eleger presidente da República um retirante nordestino que virou operário e uma militante que participou da luta armada contra a Ditadura. Em nome da governabilidade, o PT abandonou suas bases e estabeleceu alianças frustrantes com o que há de pior na política brasileira. E assim vai perdendo força, embora continue no poder – porque o eleitor não é burro e sabe escolher entre a privataria neoliberal tucana e os programas sociais que retiraram milhões da miséria nos últimos anos.

         Refiro-me ao PT, mas sinceramente eu gostaria de ver os partidos de esquerda nas ruas. Sua presença não pode ser repelida, deve antes ser acolhida. Cabe dirigir aos partidos de esquerda as críticas e demandas que levam multidões às manifestações. Por que os partidos de esquerda não estão nos representando como desejaríamos? Que partidos de esquerda queremos? Mas os protestos têm que assumir sim caráter partidário ou de uma frente partidária de esquerda, que possa efetivamente viabilizar as transformações que queremos. Várias das bandeiras que estão nas ruas são bandeiras históricas das esquerdas.

         O que não me convence ainda é a ausência de lideranças e o rumo que isso tudo tomará. Não há líderes e as decisões são tomadas em rede? Mudaremos o mundo através das redes sociais ou estas serão um eficiente instrumento de mobilização para as transformações que desejamos efetivamente realizar? Saímos mesmo do facebook? Mas quantos brasileiros estão nas redes sociais? O Brasil cabe nas redes sociais ou essa é uma miragem das metrópoles?

         Por fim, acho importante lembrar que, no passado, travamos uma árdua luta pela redemocratização do país nas últimas décadas. Uma parte importante dessa luta correspondeu à criação de um regime democrático pluripartidário. Não foi fácil criar partidos de esquerda e torná-los capazes de assumir o poder. Não foi obra da noite para o dia. Daí a sua importância.
         Ao invés de rejeitar os partidos, seria bom ver o povo na rua lutando por uma ampla reforma política. Se não nos sentimos mais representados pelos partidos que temos, vamos reformá-los e modificá-los tanto quanto for necessário, assim como o sistema político carece de transformações. Porque o meu medo é o que pode resultar dessa repulsa aos partidos. Afinal, todas as vezes em que a saudável existência de partidos foi rejeitada, a humanidade viveu períodos sombrios e terríveis - como nos fascismos, no Estado Novo, na Ditadura Militar, etc.

         É por isso que clama o povo na rua?


Denilson Botelho

Denilson Botelho é Doutor em história e atua como professor, sempre trazendo os eventos de uma forma coerente é crítica.

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Matéria: Denilson Botelho
Edição e fotos: Rodrigo Rocco

terça-feira, 18 de junho de 2013

A Alegria dos Condenados by Larissa D'Almeida



Dessa vez eu fui. E eles também foram. Todos estavam lá. Manifestantes, estudantes, o Batalhão de Choque, helicópteros, a Força Nacional, policiais militares, jornalistas, torcedores e curiosos.

Domingo foi mais um dia de protestos contra o aumento das passagens. E não faltou covardia. Quando eu cheguei, bombas de gás já haviam dispersado a concentração em frente à Estação São Cristóvão.


Nos reunimos novamente em frente a Quinta da Boa Vista, onde várias famílias também inalaram o gás lacrimogênio lançado nos manifestantes que protestavam pacificamente, cantando o hino nacional.

Eu vi uma estudante, como a Cecília, levar um tiro de bala de borracha porque estava ajoelhada, pedindo menos violência. Ela foi amparada por outros manifestantes enquanto corria do Choque, que não parava de atirar a jogar bombas. "A dor era lancinante", disse ela.


O que não dá para entender é a violência. Não dá para entender a brutalidade na repressão. Será que o fardado ainda não entendeu que ele também é explorado?


Na volta para casa, no metrô - que não cobrou passagem - torcedores reclamavam do preço abusivo de bebidas no estádio. "Uma garrafa de água por R$ 6,00?? E o latão da Brahma?? custava R$ 9,00". O problema é que esses torcedores só faziam o que nós, brasileiros, fizemos por muito tempo: reclamavam.


É lamentável perceber que você vive mesmo em uma ditadura. A ditadura do Carnaval. Do futebol. Eles dizem: "Fique feliz, ai! Divirta-se!". Por que se você quiser reclamar, mesmo que tenha razão, mesmo que de cara limpo e desarmado, você apanha. Esse é o fascismo vergonhoso do Cabral, que levanta bandeiras de partidos em um movimento popular para ter desculpas, gaguejantes, de reprimi-lo. 


A mensagem por trás de toda essa violência é: Fique quieto. Fique calado. Pegue sua fila e embarque no metrô lotado. Receba seu salário e pague o que der. Com o troco, compre uma cerveja e assista à novela.

No final, o que importa, é que a Itália fez 2 a 1 no México.


Larissa D'Almeida

Edição e foto:Rodrigo Rocco

terça-feira, 11 de junho de 2013

Absinthe Variations by Níkolas Espíndola


Absinto -  Beba sem Moderação
Nikolas Espindola tem o talento apurado na ponta do grafite, designer já conhecido por sua capacidade de assimilação de estilos e versatilidade gráfica, ele traz para o Na Lata suas criações, Nesse primeiro trabalho teremos uma mostra de Absinthe Variations  (Variações do Absinto), quer mistura o universo noir e o humor "ácido-concretista" em grande estilo. Seja bem-vindo nesse espaço meu amigo.

Where's the biscuit?

Para mais Informações de Níkolas Espíndola siga os Links:
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Facebook: http://www.facebook.com/nikolas.espindola
Portfólio:    http://www.behance.net/nikolasespindola












Fotos cedida ao Na Lata por: Níkolas Espíndola 
Edição:Rodrigo Rocco

Obs: Qualquer cópia ou reprogramação visual deve ter seu pedido formal dirigido ao criador da arte exposta Níkolas Espíndola.Sem isso o copyright é inviolável.Agradeço aos amigos que acompanham o Na Lata. ATT Rodrigo Rocco.  

terça-feira, 4 de junho de 2013

Bahia Singela by Ana Wander Bastos



O que é que a baiana tem??
Ana Wander Bastos é uma fotógrafa de mão cheia apesar de ter sua juventude estampada  em forma de alegria, ela possui um olhar incrível para captar momentos simples, que se tornam interessantíssimos a partir de um click.Ela Está sempre pronta a se aventurar e já esteve em vários países retratando o mundo, mas nessa primeira mostra no Na Lata resolvi trazer algo mais próximo de nós, aqui no Brasil mesmo, na Bahia de Caymmi. Retratando o Recôncavo baiano de uma forma doce e frágil, Ana transpassa toda sua feminilidade através do seu olhar pela lente.

Ilha de Itaparica




Para mais informações  sobre o trabalho de Ana Wander Bastos Acesse os links.

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Site:      http://anawanderbastos.com.br/                                                      
Flick:    http://www.flickr.com/photos/anawbastos/                               
E-mail:  anarwb@facebook.com                                                        
               

Fotos cedidas ao Na Lata por: Ana Wander Bastos
Fotos do perfil de Ana feita por: Gabriel K Saito
Edição: Rodrigo Rocco